DIVERSIDADE

Evento realizado pela Coordenação da Diversidade Sexual (CDS/DIV) debate os desafios das pessoas LGBT na Universidade

 

EventoDiversidade e resistência na Universidade aconteceu na Faculdade de Ceilândia. Foto: Amália Gonçalves/Secom UnB

 

Há 27 anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) parou de considerar a homossexualidade uma doença. Por essa razão, 17 de maio se tornou o Dia Internacional de Combate à Homofobia. Em alusão à data e à importância de debater sobre a existência digna de LGBTs na UnB e na sociedade, a Diretoria da Diversidade (DIV) realizou, na última quinta-feira (18), o evento Diversidade e resistência na Universidade. A atividade ocorreu na Faculdade de Ceilândia (FCE).

 

A programação, organizada pela Coordenação da Diversidade Sexual da DIV, se estendeu por todo o dia. No período da tarde, uma mesa-redonda tratou do tema no auditório da Unidade de Ensino e Docência da FCE. A mediação foi feita pela diretora da DIV, Susana Xavier. Participaram Edu Cavadinha (NESP); Felipe de Baére (PPGPsiCC/Escuta Diversa); Madu Krasny (estudante de Letras); Maria do Carmo Queiroz (Mães pela Diversidade); Rodrigo de Souza (NegroSUS/FCE).

 

Susana Xavier abriu a mesa retomando o histórico da DIV. Criada em 2013, a diretoria representou uma resposta institucional a uma violência sofrida por uma universitária lésbica, agredida no estacionamento do ICC. Já a Coordenação dos Direitos da Mulher (CODIM/DIV) surgiu após o feminicídio da estudante Louise Ribeiro, em 2016, no Instituto de Ciências Biológicas (IB), cometido por outro estudante.

 

“Essas estruturas surgiram em um contexto de violência”, destacou a diretora. “A UnB tem 55 anos e suas políticas para esse público que está à margem, mulheres, negros, indígenas e LGBTs, ainda é fraca”, continuou. 

 

“É difícil tratar a questão na UnB porque todas as violências que existem na sociedade entram na Universidade. Mesmo assim, é inadmissível existir esse tipo de prática de violência no ambiente universitário”, disse.

 

AÇÕES – O psicólogo Felipe de Baére, representante da iniciativa Escuta Diversa, comentou os desafios encontrados pelas pessoas LGBT na Universidade, que, de um lado, oferece um ambiente aberto a debate e a novos temas, mas, por outro lado, também é palco de violência LGBTfóbica, resistência, assédio e estupro. “Ocorre também o epistemicídio, em que não há espaço para a pesquisa acadêmica investigar temas que deveriam ser debatidos na Universidade, como as várias questões relativas ao universo LGBT”, apontou.

 

Baére informou que o Escuta Diversa, que promove uma rede de proteção à comunidade LGBT, fez levantamento dos marcos normativos e das redes de acolhimento existentes na UnB. Coordenado pelas professoras Tatiana Lionço e Lívia Barbosa, o projeto agora está no caminho de se tornar um programa de extensão.

 

Os quatro campi da UnB têm queixas distintas sobre violência, segundo Baére. A Faculdade do Gama (FGA), por exemplo, tem muitos casos de LGBTfobia e de violências de cunho machista. Já na FCE predominam intolerância religiosa e racismo.

 

VIVÊNCIAS – Na sequência, a estudante trans Madu Krasny, do Instituto de Letras, ressaltou os alarmantes índices de assassinato de transexuais no Brasil, que detém recordes desse tipo de violência no mundo. “Em média, duas pessoas trans são assassinadas por dia no país. Esse número aumentou. Em 2016, era uma pessoa por dia”. Além do risco à vida, a estudante destacou as dificuldades enfrentadas pelas pessoas trans de manter os estudos e de acessar o mercado de trabalho.

 

Há ainda o preconceito que sofrem, inclusive o institucional, quando os estudantes se deparam com incompreensão de professores e servidores da UnB acerca do nome social. “É pesado ser trans negra na Universidade. Mulheres são muito fetichizadas. Trans também. Sinto-me mal em andar pelos corredores do ICC”, relata. 

Estudante Madu Krasny: "É pesado ser trans negra na Universidade". Foto: Amália Gonçalves/Secom UnB

 

Rodrigo de Souza, do movimento NegroSUS, é estudante da FCE e contou algo semelhante. “A união do ser preto com o ser ceilandense nunca trouxe coisas boas. Ainda por cima ser gay”, comentou, ao falar sobre as experiências de racismo e preconceito aos quais se viu submetido. Além disso, Souza levanta o problema da falta de representação na Universidade. “Meu professor me usa como exemplo, mas não me estuda. Quem vai me estudar são os homens brancos que vão me dizer como os homens negros devem se comportar.”

 

AMEAÇAS – Maria do Carmo Queiroz, a Cacá, é mãe de LGBT e representante do Mães pela Diversidade. Ela afirma se preocupar com a segurança do filho. “Essa onda de violência se intensificou com o movimento de fundamentalismos que tomou a esfera pública”, disse. “A Universidade é o local onde nossos filhos são muito infelizes. Muitas vezes, até abandonam os estudos por isso. Universidade é lugar de abertura. Se não é aberto, receptivo e inclusivo, porque existe?”, questionou.

 

Segundo Cacá, os cursos em que há maior incidência de violência LGBTfóbica são as engenharias, seguidas dos cursos relacionados ao campo, das exatas e Geologia. Letras e Artes estariam no final da lista.

 

“Não fale, não mostre, não diga, senão, vão te matar”. Foi assim que Edu Cavadinha, do Núcleo de Estudos de Saúde Pública (NESP), descreveu os conselhos que ouviu ao longo do processo de se entender homem trans. Ainda assim, é preciso mudar a realidade. “Não vamos aceitar mais com naturalidade essas violências”, afirmou.

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